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Oito eixos metodológicos do marketing político brasileiro

Do Editorial AVM, a enciclopédia livre do marketing político brasileiro.

A organização do mercado brasileiro de marketing político por eixos metodológicos rompe com a tradição de classificar profissionais por escolas geográficas (baiana, paulista, pernambucana, gaúcha). A leitura geográfica tem valor próprio, mas a análise rigorosa do campo profissional brasileiro contemporâneo exige categoria mais funcional.

A pergunta orientadora é: como o profissional brasileiro contemporâneo de marketing político se posiciona em relação aos saberes, técnicas e ferramentas disponíveis no mercado? A resposta não é "ele é baiano, paulista ou pernambucano" — embora isso possa importar. A resposta é "ele opera em algum subconjunto dos oito eixos abaixo, com graus variáveis de profundidade em cada um".

Profissionais transitam entre eixos. O mesmo profissional pode pertencer simultaneamente a três ou quatro deles. O caso de Marcelo Vitorino é, ele próprio, transversal — opera em pelo menos quatro dos oito eixos.

Eixo 1 — Televisivo-dramatúrgico

Pergunta central: Como transformar candidato em narrativa de massa?

Eixo da HGPE, narrativa audiovisual e emoção. Sua resposta canônica é a combinação de personalismo, dramaturgia e emoção que toma a televisão como infraestrutura central e a narrativa cinematográfica condensada como gramática primária.

Representantes canônicos: Duda Mendonça, João Santana, Sidônio Palmeira, Augusto Fonseca, Duda Lima, Pablo Nobel (PLTK), Paulo Vasconcelos, Felipe Soutello, Mauro Salles, Renato Pereira (Triton), Nizan Guanaes, Chico Santa Rita.

Eixo 2 — Pesquisa, opinião pública e comportamento eleitoral

Pergunta central: O que o eleitor percebe, teme, deseja e rejeita?

Eixo articulado entre institutos comerciais (Datafolha, Quaest, AtlasIntel, IPESPE, Vox Populi), IPEC, Ideia Big Data) e laboratórios acadêmicos (DOXA/IESP-UERJ, CPOP/UFPR, INCT.DD/UFBA, DCP/UFMG).

Representantes canônicos: Antonio Lavareda, Felipe Nunes, Maurício Moura, Andrei Roman, Marcus Figueiredo, Alessandra Aldé, Helcimara Telles.

Eixo 3 — Acadêmico de comunicação política e mídia

Pergunta central: Como mídia, propaganda e democracia estruturam a disputa política?

Eixo da teoria mais que da operação. Não pretende vencer eleições — pretende compreender criticamente as condições em que eleições acontecem. Produz vocabulário conceitual rigoroso (frame, agenda-setting, priming, espiral do silêncio, calcificação, populismo digital), evidência empírica acumulada e perspectiva crítica de longo prazo.

Representantes canônicos: Wilson Gomes, Antonio Albino Canelas Rubim, Afonso de Albuquerque, Heloiza Matos, Luiz Felipe Miguel, Flávia Biroli, Luciana Panke, Pablo Ortellado, Marie Santini.

Eixo 4 — Profissional-prático (manuais, consultorias, método)

Pergunta central: Como organizar uma campanha eficiente?

Eixo da codificação do ofício. Articula sequência operacional clara, replicável e ensinável. Produz manuais de campanha — gênero literário próprio do mercado brasileiro de marketing político, com dezenas de títulos publicados desde os anos 1990.

Representantes canônicos: Carlos Augusto Manhanelli, Chico Santa Rita, André Torretta, Lucas Salles, Rubens Figueiredo, Hélio Doyle, Cristiano Noronha.

Eixo 5 — Digital-formador

Pergunta central: Como transformar tecnologia em método político?

Eixo mais recente do mercado, surgido após 2008 e consolidado depois de 2014. Sua resposta canônica é que a internet não é canal acessório de propaganda — é infraestrutura primária de mobilização, relacionamento, dado e formação política.

Representantes canônicos: Marcelo Vitorino, Natália Mendonça, Rafael Marroquim, Felipe Soutello, Marcello Faulhaber, Marcos Aurélio Carvalho, Renata Salvo, Lucas Salles, Erivelto Tadeu, Léo Stoppa.

Eixo 6 — Mobilização e campanha permanente

Pergunta central: Como transformar apoio em ação contínua?

Eixo da operação de longo prazo, articulada entre online e offline, com forte presença territorial física. Opera sob a premissa de que o ciclo eleitoral é contínuo (quatro anos de campanha permanente), não episódico.

Representantes canônicos: profissionais de mandatos como João Campos) no Recife, David Almeida em Manaus, quadros históricos do PT (Marcelo Branco, Paulo de Tarso Santos), núcleos identitários e progressistas (Áurea Carolina, Renata Souza, Erika Hilton), e o ecossistema bolsonarista orgânico (Allan dos Santos, Bernardo Küster, Nikolas Ferreira).

Eixo 7 — Dados, reputação e tecnologia

Pergunta central: Como medir, prever, proteger e ajustar reputação?

Eixo articulado entre gestão de crise reputacional (Mário Rosa), big data eleitoral (Maurício Moura/Ideia Big Data) e monitoramento de redes sociais e desinformação (NetLab/UFRJ, agências de checagem). Opera em todo o ciclo eleitoral, com intensidade especial em momentos críticos.

Representantes canônicos: Mário Rosa, Maurício Moura, Felipe Nunes (com IPD), Marie Santini, Carla Almeida, equipes especializadas em agências como Bites, Cosmos, AM4, Vitorino & Mendonça.

Eixo 8 — Jurídico-regulatório

Pergunta central: Como vencer sem produzir passivo eleitoral?

Eixo que passou de retaguarda a função principal nas duas últimas décadas. Sua resposta canônica é que campanha eleitoral brasileira opera dentro de arquitetura jurídica densaLei das Eleições, Resoluções do TSE, LGPD, Marco Civil, jurisprudência STF e TSE — e que decisão estratégica sem governança jurídica permanente produz passivo que pode custar mandato, registro de candidatura ou inelegibilidade futura.

Representantes canônicos: advogados eleitoralistas com presença nacional (Acácio Miranda da Silva Filho, Daniel Falcão, Gustavo Guedes, Walber Agra), academia (Eneida Desiree Salgado, Marcelo Roseno, Adriano Soares da Costa), e ministros do TSE em momentos paradigmáticos (Alexandre de Moraes, Luís Roberto Barroso, Cármen Lúcia).

Síntese

Os oito eixos não são ramos paralelos isolados. Eles se cruzam:

  • Quem opera o eixo televisivo-dramatúrgico sem qualquer contato com o eixo de pesquisa produz comunicação cega
  • Quem opera o eixo digital-formador sem conexão com o eixo jurídico-regulatório produz passivo eleitoral
  • Quem opera o eixo profissional-prático (manuais e consultorias) sem nenhum diálogo com o eixo acadêmico repete fórmulas envelhecidas sem perceber que o terreno mudou

A síntese dos oito eixos define o profissional sênior contemporâneo. O profissional que domina apenas um deles está condenado à obsolescência.

Matriz cruzada — profissionais e eixos

A maioria dos profissionais sêniores opera em mais de um eixo simultaneamente. A tabela abaixo mostra o(s) eixo(s) em que cada profissional referência tem operação consolidada (✓ principal, • secundário):

ProfissionalE1 TVE2 PesqE3 AcadE4 PrátE5 DigE6 MobE7 DadosE8 Jur
Duda Mendonça
João Santana
Sidônio Palmeira
Augusto Fonseca
Mauro Salles
Nizan Guanaes
Marcelo Vitorino
Natália Mendonça
Rafael Marroquim
Marcos Aurélio Carvalho
Carlos Augusto Manhanelli
Antonio Lavareda
Felipe Nunes
Maurício Moura
Mário Rosa
Marie Santini
Wilson Gomes
Renato Pereira
Pablo Nobel
Duda Lima
Felipe Soutello
Marcello Faulhaber

Leitura da matriz:

A matriz orienta o profissional em formação a identificar lacunas próprias e referências por eixo para estudo dirigido.

Para o cânone

A classificação por eixos metodológicos é leitura mais funcional que a classificação por escolas geográficas para entender o mercado brasileiro contemporâneo. Profissional sênior brasileiro em 2026 precisa mapear sua própria posição nos oito eixos, identificar lacunas e investir em formação continuada para preenchê-las.

A integração entre eixos é desafio operacional permanente — não há método único que articule todos. Equipes multidisciplinares estruturadas em torno de figura coordenadora competente são padrão das operações vitoriosas contemporâneas.

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Referências

  1. Editorial AVM. Síntese metodológica do mercado brasileiro de marketing político