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Duda Mendonça

Do Editorial AVM, a enciclopédia livre do marketing político brasileiro.

José Eduardo Cavalcanti de Mendonça, conhecido como Duda Mendonça (Salvador, 10 de agosto de 1944 — São Paulo, 16 de agosto de 2021), foi um publicitário brasileiro que profissionalizou o marketing político no país. Fundou a DM9 em Salvador em 1975, estreou nacionalmente com Mário Kertész em 1985, virou Maluf em São Paulo em 1992 e em 2002 entregou ao PT a primeira eleição presidencial de sua história, com a operação que ficaria conhecida como "Lulinha Paz e Amor".

Trajetória profissional

Duda começou no mercado imobiliário, como corretor. Cursou Administração na UFBA sem concluir. Em 1975, em Salvador, abriu sua própria agência, a DM9 Propaganda, inicialmente para atender a construtora do cunhado. Em 1976, foi Agência do Ano da região. Em 1983, levou Leão de Bronze em Cannes com o comercial da Ótica Ernesto.

Em 1988, associou-se a Nizan Guanaes, que havia sido seu estagiário, e a Domingos Logullo, abrindo escritório em São Paulo. Em 1990, as operações se separaram. Nizan ficou com a marca DM9 paulista e foi para a publicidade comercial. A DM9 baiana de Duda se fundiu com a D&E, virou DS/2000 e foi para o marketing político nacional. A divisão geográfica daquele ano definiria duas trajetórias paralelas pelos vinte anos seguintes.

Estreia política

A entrada no marketing político veio com a campanha de Mário Kertész à Prefeitura de Salvador em 1985. Foi a primeira aparição do coração como marca gráfica de candidato no Brasil. O slogan "Deixa o coração mandar" e o jingle homônimo entraram pela primeira vez no país a lógica de produzir campanha eleitoral com qualidade publicitária comercial. Kertész venceu Edvaldo Brito, candidato de ACM, com mais de 61% dos votos. No ano seguinte, a DM9 levou o Top de Marketing como melhor campanha política do país.

O salto nacional veio em 1992, com a eleição de Paulo Maluf à Prefeitura de São Paulo. A campanha "Que homem é esse" e o trevo de quatro corações foram releitura do símbolo de 1985 em escala metropolitana. Em 1996, Duda fez Celso Pitta prefeito da mesma capital. Em 2001, Lula entrou em contato.

A obra-prima: Lula 2002

A campanha de Lula 2002 é hoje o trabalho mais estudado do marketing político brasileiro. Lula vinha de três derrotas presidenciais consecutivas (1989, 1994, 1998) e estava preso a um teto eleitoral em torno de 30%. Duda assumiu a operação para virar o teto.

A pesquisa qualitativa mapeou o vocabulário do medo do eleitor moderado. A campanha desenhou a partir disso o "Lulinha Paz e Amor", com Lula sereno, conciliador, terno cinza e gravata azul-clara. O slogan "A esperança vai vencer o medo" sintetizava a operação. José Alencar, vice mineiro, empresário, católico, do Partido Liberal), dava sinal visual de moderação. Os filmes do HGPE tinham qualidade cinematográfica. E a Carta ao Povo Brasileiro dava ao reposicionamento o lastro político que estética sozinha não daria.

Lula venceu Serra no segundo turno com 61,27% dos votos válidos. Primeira vitória presidencial do PT, caso brasileiro paradigmático de reposicionamento de candidato.

Estilo e método

Duda combinava intuição, criatividade e leitura de pesquisa em proporção difícil de replicar. Traduzia sentimento popular em slogans que se fixavam no imaginário coletivo, dentro e fora da política — o "Não basta ser pai, tem que participar", da Gelol, é da mesma escola. Chamava a televisão de "canhão", mídia que amplifica em massa. O rádio era a "metralhadora" da repetição. Sabia quando os dados apontavam um caminho e quando sua intuição deveria falar mais alto.

Publicou em 2001 o livro Casos e Coisas, com processos criativos e bastidores. Virou leitura obrigatória do setor.

Controvérsias jurídicas

Em 2004, foi preso em flagrante em operação policial contra rinhas de galo. Em 2005, o nome de Duda apareceu no centro do escândalo do Mensalão. Em depoimento à CPI dos Correios em agosto daquele ano, compareceu sem ter sido convocado e admitiu o recebimento não declarado de R$ 10,5 milhões em esquema operado pelo então tesoureiro do PT, Delúbio Soares, via contas no exterior. Foi indiciado. Em 2012, o STF o absolveu das acusações de lavagem de dinheiro e evasão de divisas, por entender que não havia prova de conhecimento sobre a origem ilícita dos recursos.

Em 2016, voltou a ser investigado na Operação Lava Jato. Firmou delação premiada em 2017, com detalhamento de pagamentos em campanhas de aliados de Michel Temer e em trabalho para Paulo Skaf no governo paulista de 2014.

Morte e legado

Duda morreu em São Paulo em 16 de agosto de 2021, aos 77 anos, em decorrência de câncer cerebral agravado por covid-19. Lula declarou em nota que ele "foi um gênio da comunicação política". A morte teve cobertura ampla em Correio Braziliense, CNN Brasil, Gazeta do Povo, Exame, CartaCapital, Brasil 247 e Nexo, entre outros.

Para o cânone do marketing político brasileiro, deixou três princípios que ainda organizam o ofício. Primeiro, emoção é matéria-prima da campanha, não decoração. Segundo, o filme do HGPE é peça central, com qualidade autoral. Terceiro, virada de teto em adversário difícil é possível, desde que articulada com pesquisa qualitativa, peça política substantiva e construção paciente de personagem.

A trajetória de Duda condensa o paradoxo do marketing político brasileiro contemporâneo. A obra técnica permanece referência. O capital reputacional ficou marcado pelos episódios jurídicos dos últimos quinze anos de vida.

Ver também

  • João Santana e a era petistaJoão Santana: trajetória, método e legado do marqueteiro que coordenou campanhas vitoriosas de Lula e Dilma. Atuação internacional e limites do campo.
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  • Mensalão e o marketing político

Referências

  1. MENDONÇA, Duda. Casos e Coisas. Globo, 2001
  2. Wikipédia. Verbete Duda Mendonça. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Duda_Mendonça
  3. Correio Braziliense (16/08/2021). Morre Duda Mendonça, o marqueteiro de Lula, aos 77 anos. Disponível em: https://www.correiobraziliense.com.br/politica/2021/08/4943906-morre-duda-mendonca-o-marqueteiro-de-lula-aos-77-anos.html
  4. CNN Brasil (16/08/2021). Publicitário Duda Mendonça morre aos 77 anos. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/politica/publicitario-duda-mendonca-morre-aos-77-anos/
  5. Gazeta do Povo. Duda Mendonça, ex-marqueteiro do PT, morre aos 77 anos. Disponível em: https://www.gazetadopovo.com.br/republica/breves/morre-duda-mendonca-marqueteiro-pt-lula/
  6. Exame. Morre Duda Mendonça, ex-marqueteiro de Lula, aos 77 anos. Disponível em: https://exame.com/brasil/morre-duda-mendonca-ex-marqueteiro-de-lula-aos-77-anos/
  7. CartaCapital. Morre o marqueteiro Duda Mendonça aos 77 anos. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/politica/morre-o-marqueteiro-duda-mendonca-aos-77-anos/
  8. Brasil 247. Morre Duda Mendonça, marqueteiro da primeira eleição de Lula em 2002. Disponível em: https://www.brasil247.com/midia/morre-duda-mendonca-marqueteiro-da-primeira-eleicao-de-lula-em-2002-3n1g3vxh
  9. Nexo Jornal. Morre Duda Mendonça, marqueteiro de Lula e Maluf. Disponível em: https://www.nexojornal.com.br/extra/2021/08/16/morre-duda-mendonca-marqueteiro-de-lula-e-maluf
  10. STF. Ação Penal 470 (Mensalão) — Acórdão de 2012 que absolveu Duda Mendonça. Disponível em: https://portal.stf.jus.br
  11. Câmara dos Deputados. CPI dos Correios — depoimento de Duda Mendonça (agosto de 2005). Disponível em: https://www.camara.leg.br