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Redemocratização e o marketing político

Do Editorial AVM, a enciclopédia livre do marketing político brasileiro.

A redemocratização brasileira — o período entre 1979 (Lei da Anistia) e 1989 (primeira eleição direta para presidente após 21 anos) — é o intervalo histórico em que o marketing político brasileiro passou de campo amador a ofício estruturado. As campanhas dessa década articularam, pela primeira vez, método publicitário, planejamento estratégico, articulação de imagem e coordenação com imprensa nacional em escala que se tornaria padrão dos anos seguintes.

A transição não foi apenas política — foi metodológica. Antes de 1979, campanha era operação artesanal, conduzida por jornalistas e cabos eleitorais. Depois de 1989, campanha era operação profissional, com marqueteiro celebrity, planejamento documentado e equipe especializada. O período da redemocratização é a passagem.

O contexto

O período começa com a abertura "lenta, gradual e segura" anunciada por Ernesto Geisel e operada por João Figueiredo. A Lei da Anistia (28 de agosto de 1979) permite o retorno de exilados políticos. A reforma partidária (29 de novembro de 1979) extingue ARENA e MDB e abre espaço para multipartidarismo.

A partir daí, o campo eleitoral se reorganiza:

  • Eleições estaduais de 1982 — primeiras diretas para governador desde 1965
  • Movimento Diretas Já — 1983-1984, com comícios massivos exigindo eleição direta para presidente
  • Derrota da Emenda Dante de Oliveira em 25 de abril de 1984
  • Eleição indireta de Tancredo Neves no Colégio Eleitoral em 15 de janeiro de 1985 — fim do regime militar
  • Constituição de 1988 — restauração do estado de direito
  • Eleição direta de Fernando Collor de Mello em 1989 — primeira disputa presidencial pós-1960

Cada um desses marcos foi também um marco metodológico para o marketing político brasileiro.

Diretas Já — a primeira mobilização massiva

O movimento Diretas Já é o primeiro grande exercício de comunicação política de massa do período democrático. Articulou:

O movimento perdeu o objetivo imediato — a Emenda Dante de Oliveira foi derrotada em abril de 1984 — mas estabeleceu gramática de mobilização que seria reaproveitada nas campanhas seguintes.

Tancredo 1985 — primeira operação metodológica

A campanha de Tancredo Neves no Colégio Eleitoral em 1985, coordenada por Mauro Salles, é o primeiro exercício de comunicação política conduzido com método publicitário no Brasil pós-1964. Articulou três frentes simultâneas:

  1. Articulação parlamentar com o PDS dissidente (Frente Liberal de Sarney e Aureliano Chaves)
  2. Construção da imagem de Tancredo como estadista experiente, conciliador, capaz de fazer transição sem ruptura
  3. Manutenção da pressão popular — embora a eleição fosse indireta, o Colégio Eleitoral precisava sentir que negar a vitória era inviável

A operação foi bem-sucedida — 480 votos contra 180 de Maluf em 15 de janeiro de 1985. A morte de Tancredo às vésperas da posse e a sucessão por José Sarney não retiraram o significado simbólico da operação. Pela primeira vez no Brasil pós-ditadura, uma campanha eleitoral foi conduzida com protocolo profissional.

Collor 1989 — a primeira disputa direta

A eleição de Fernando Collor em 1989 é a primeira eleição presidencial direta desde 1960 — e a primeira em que o marketing político brasileiro opera com estrutura profissional plena. Articulou:

  • Equipe de marketing dedicada — Setembro Comunicação na coordenação principal, com participação de Nizan Guanaes e equipe da DM9
  • Construção do personagem — o "caçador de marajás", figura que combinava juventude, energia, postura agressiva e promessa de ruptura
  • Uso intensivo da TV — primeira disputa em que o HGPE opera em escala nacional com alta produção
  • Ataque sistemático ao adversário — operação de desconstrução de Lula no segundo turno (debate, peça da Miriam Cordeiro)

A campanha de Lula 1989, do outro lado, foi a primeira operação de comunicação massiva do PT, com método mais artesanal mas com escala inédita para o partido. A derrota — 53% a 47% no segundo turno — encerrou o período da redemocratização e abriu o ciclo das eleições diretas plenas.

A geração de profissionais

O período da redemocratização formou a primeira geração de marqueteiros políticos profissionais no Brasil:

  • Mauro Salles — decano, articulou Tancredo 1985, ex-diretor de jornalismo da TV Globo
  • Duda Mendonça — emergiu na década, ainda em Salvador (DM9 baiana, depois São Paulo em 1988)
  • Nizan Guanaes — partilhou a fundação da DM9 paulista em 1989
  • Carlos Augusto Manhanelli — fundou a ABCOP em 1989, articulou profissionalização institucional do mercado

Essa geração formaria, ao longo dos anos 1990 e 2000, a escola brasileira de marketing político — reconhecida internacionalmente e exportada para CPLP e América Latina.

Para o cânone

A redemocratização é o ponto de origem do marketing político brasileiro tal como o conhecemos. Profissional sênior em 2026 que ignora esse período opera sem entender de onde vem o método que aplica. As decisões metodológicas tomadas entre 1979 e 1989 — uso intensivo de TV, posicionamento como narrativa central, articulação entre comunicação e estratégia, papel do marqueteiro como personagem público — definiram o terreno em que todas as campanhas seguintes operaram.

A formulação canônica é: a redemocratização não foi só transição política — foi transição metodológica. Sem entender a passagem de 1979-1989, a história do marketing político brasileiro fica incompleta.

Ver também

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  • Case: Tancredo 1985 (Colégio Eleitoral)Em 15 de janeiro de 1985, Tancredo Neves foi eleito presidente pelo Colégio Eleitoral com 480 votos contra 180 de Paulo Maluf, em primeira posse civil de um presidente…
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Referências

  1. FIGUEIREDO, Rubens (org.). Marketing Político e Persuasão Eleitoral. Konrad Adenauer, 2000.
  2. ALBUQUERQUE, Afonso de. Aqui você vê a verdade na tevê: a propaganda política na televisão. EdUFF, 1999.
  3. Folha de S.Paulo. Cobertura histórica do período 1979-1989