Case: Tancredo 1985 (Colégio Eleitoral)
Do Editorial AVM, a enciclopédia livre do marketing político brasileiro.
Em 15 de janeiro de 1985, Tancredo Neves foi eleito presidente da República pelo Colégio Eleitoral com 480 votos contra 180 de Paulo Maluf. Foi a primeira posse civil de um presidente brasileiro desde 1961, encerrando 21 anos de regime militar (1964-1985).
A operação de comunicação foi coordenada por Mauro Salles, decano da publicidade brasileira, ex-diretor de jornalismo da TV Globo na sua fundação em 1965, e antigo secretário do gabinete de Tancredo no parlamentarismo de 1961-1962. Mauro Salles é o elo direto entre a publicidade comercial brasileira e a comunicação política institucional moderna.
O contexto
A derrota da emenda Dante de Oliveira na Câmara em 25 de abril de 1984 forçou a oposição a aceitar a eleição indireta no Colégio Eleitoral, marcada para 15 de janeiro de 1985. Tancredo Neves, governador de Minas Gerais pelo PMDB, foi escolhido como candidato da oposição em aliança com a dissidência do PDS, agora reorganizada como Frente Liberal sob liderança de José Sarney e Aureliano Chaves.
O candidato governista, Paulo Maluf, representava a continuidade do regime militar.
A operação Mauro Salles
Sob coordenação de Salles e da equipe da Frente Liberal, a campanha de Tancredo trabalhou três frentes simultâneas:
Primeira — articulação parlamentar com PDS dissidente
Indispensável para garantir os votos necessários no Colégio Eleitoral — Tancredo precisava de 344 votos dos 686 membros do colégio. A Frente Liberal articulou ruptura interna do PDS, com Sarney e Aureliano migrando para o campo oposicionista. A negociação política foi tão importante quanto a comunicação publicitária.
Segunda — construção da imagem de Tancredo
Como estadista experiente, conciliador e moderado, capaz de fazer a transição democrática sem rupturas traumáticas. Tancredo era figura pública conhecida (ex-primeiro-ministro em 1961-1962, ex-ministro), com perfil que articulava experiência política e moderação institucional. A construção de imagem amplificou esses atributos.
Terceira — manutenção da pressão popular
Embora a eleição fosse indireta, era preciso que o Colégio Eleitoral percebesse que negar a vitória a Tancredo seria politicamente inviável diante da mobilização social que continuava nas ruas após a derrota da emenda Dante de Oliveira.
A imagem do movimento das Diretas Já se mantinha viva, e qualquer voto contra Tancredo em 1985 seria interpretado como traição à vontade popular.
O resultado
Em 15 de janeiro de 1985, Tancredo Neves foi eleito presidente com 480 votos contra 180 de Maluf.
Seria a primeira posse civil de um presidente brasileiro desde 1961, encerrando 21 anos de regime militar.
A tragédia que se seguiu
A tragédia que se seguiu marcou a transição com luto coletivo:
- Tancredo foi internado às vésperas da posse marcada para 15 de março
- José Sarney assumiu como vice em 15 de março
- Tancredo morreu em 21 de abril de 1985, antes de tomar posse efetiva
Sarney, ex-líder do PDS antes de migrar para a Frente Liberal, foi instalado na presidência em circunstâncias dramáticas — figura do regime militar tornou-se primeiro presidente civil da redemocratização. A operação política e simbólica de 1984-1985 já havia construído o terreno para a Nova República, mas o resultado pessoal foi inverso ao planejado.
Para o cânone
Para o marketing político, o ciclo Diretas Já / Tancredo 1985 deixa três legados duradouros:
- A profissionalização da comunicação de campanha em escala nacional — Mauro Salles e sua equipe operaram com método publicitário, planejamento estratégico, articulação de imagem e coordenação com imprensa
- A integração entre mobilização popular e comunicação de elite — a campanha funcionou porque combinou comício de massa (legado das Diretas) com articulação parlamentar e cobertura de imprensa nacional
- A constituição de um repertório de símbolos da redemocratização — cores, músicas, frases, gestos — que estaria disponível para os marqueteiros das campanhas seguintes
Quando Duda Mendonça apareceu em Salvador em 1985 para coordenar a campanha de Mário Kertész, o terreno simbólico já estava preparado pela memória das Diretas e pela operação de Tancredo. O coração como marca de Kertész 1985 dialoga com o vermelho/amarelo das Diretas. O jingle Lula Lá de 1989 dialoga com a tradição musical-política consolidada no movimento.
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Referências
- CPDOC/FGV. Verbete sobre Tancredo Neves
- Folha de S.Paulo. Cobertura histórica do Colégio Eleitoral de 1985
- GASPARI, Elio. A Ditadura Acabada. Companhia das Letras, 2016