PolitipédiaCases

Case: Kertész 1985 (Salvador)

Do Editorial AVM, a enciclopédia livre do marketing político brasileiro.

A profissionalização do marketing eleitoral brasileiro em sentido contemporâneo tem marco preciso: a campanha de Mário Kertész para a Prefeitura de Salvador em 15 de novembro de 1985, conduzida pelo publicitário baiano José Eduardo Cavalcanti de Mendonça, Duda Mendonça, fundador da agência DM9 (Salvador, 1975).

A vitória de Kertész — o primeiro prefeito de uma capital eleito pelo voto direto após 21 anos de regime militar — não foi apenas episódio político baiano. Foi a inauguração de uma era em que o marketing se tornaria ferramenta central e indispensável nas disputas eleitorais no Brasil.

O contexto

O contexto político baiano de 1985 era específico. Antônio Carlos Magalhães (ACM), governador da Bahia entre 1971 e 1975 e ministro das Comunicações no governo Figueiredo (1985), construíra ao longo de duas décadas uma máquina política regional formidável que combinava:

  • Controle do estado
  • Presença na imprensa via Rede Bahia (afiliada da Globo)
  • Articulação com lideranças municipais
  • Cooptação sistemática de adversários

Romper com o carlismo era, para qualquer político baiano, decisão de alto custo. Mário Kertész, administrador de empresas e ex-prefeito biônico de Salvador no início dos anos 1980, fez essa ruptura. Lançou candidatura como independente, em frente unida com PMDB e setores oposicionistas, contra Edvaldo Brito, candidato apoiado por ACM.

A leitura do contexto

A operação de Duda Mendonça começou pela leitura aguda do contexto. Salvador era cidade jovem, com forte presença afro-brasileira, identidade cultural orgulhosa e história de resistência política.

Carlismo era percebido por parte significativa do eleitorado como autoritarismo, paternalismo e atraso. Kertész, com perfil técnico e gestão moderna, podia ser apresentado como alternativa de futuro contra a velharia política.

Mas o desafio comunicacional era específico: como construir conexão emocional com o eleitorado em campanha que, sem mobilização afetiva, seria apenas escolha racional entre duas máquinas administrativas?

A resposta — coração e cadência rítmica

A resposta de Duda foi articulada em torno de um símbolo único e de um slogan rítmico:

O símbolo — o coração

Primeira aparição do coração como marca gráfica de candidato no Brasil. O coração foi adotado como assinatura visual em toda a comunicação — adesivos, camisetas, panfletos, peças televisivas, palanques.

A escolha foi revolucionária para o padrão da época. A propaganda política brasileira pré-1985 articulava símbolos partidários, fotos de candidatos, listas de currículo. Símbolo emocional como núcleo da identidade visual era inovação.

O slogan — "Deixa o coração mandar"

A formulação sintetizava a estratégia de criar conexão emocional acima da racionalidade fria da escolha de gestor. O jingle homônimo, gravado com músicos baianos, tocou exaustivamente nas rádios da capital e foi repetido em comícios.

O método Duda Mendonça

A operação articulou elementos que se tornariam marca registrada da escola baiana:

  1. Pesquisa qualitativa para entender o vocabulário do eleitor e a textura emocional do humor coletivo
  2. Filmes televisivos com qualidade publicitária — produção cuidadosa, edição limpa, trilha sonora trabalhada, em contraste com a propaganda política amadora que dominava o circuito
  3. Aparições calculadas do candidato em territórios específicos, articulando comunicação midiática e presença territorial
  4. Slogan curto e memorável, com cadência rítmica que permitia repetição em coro
  5. Coordenação integrada entre TV, rádio, panfleto, comício e mídia paga

O resultado

Kertész venceu Edvaldo Brito com mais de 61% dos votos válidos, em primeiro turno. A elite política baiana foi derrotada em sua principal capital.

A DM9 conquistou no ano seguinte (1986) o Top de Marketing como melhor campanha política do país. O coração como marca virou meme antes do meme — replicado em campanhas de outros estados e usado por Duda novamente em:

  • 1990, com Maluf no governo paulista (derrotado por Quércia)
  • 1992, com Maluf na Prefeitura de São Paulo (vitória contra Eduardo Suplicy), agora transformado em trevo de quatro corações

Para o cânone

A campanha de Kertész 1985 estabeleceu três princípios duradouros para o marketing político brasileiro:

  1. Emoção é matéria-prima primária da campanha, não complemento decorativo. Quem opera apenas argumento racional perde para quem combina argumento com emoção
  2. O filme cinematográfico do HGPE é peça central, com qualidade autoral — VTs como obras audiovisuais, não como propaganda burocrática
  3. Virada de chave em adversário difícil é possível — em contexto desfavorável, com máquina adversária consolidada e percepção pública trabalhada por décadas, é possível romper o teto eleitoral via reposicionamento simbólico bem executado

Esses princípios, formulados em Salvador 1985, atravessariam toda a era clássica do HGPE até pelo menos 2014. O caso Kertész é o marco fundador do mercado moderno brasileiro de marketing político.

A trajetória de Duda pós-1985

Duda saiu de 1985 como referência baiana. Em 1986, a DM9 já era agência reconhecida nacionalmente. Em 1988, Duda associou-se a Nizan Guanaes (que havia sido seu estagiário) e a Domingos Logullo, abrindo escritório da DM9 em São Paulo. Em 1990, as operações foram separadas.

A trajetória que culminaria em Lula 2002 começou ali — em Salvador, em 1985, com o coração de Kertész.

Ver também

  • Duda MendonçaJosé Eduardo Cavalcanti de Mendonça (1944-2021), o Duda Mendonça, foi o publicitário baiano que profissionalizou o marketing político brasileiro contemporâneo. Estreou em…
  • João Santana (marqueteiro)João Cerqueira de Santana Filho (Tucano-BA, 1953) é um dos marqueteiros mais influentes do marketing político brasileiro e latino-americano. Sócio com Mônica Moura da Polis…
  • Case: Tancredo 1985 (Colégio Eleitoral)Em 15 de janeiro de 1985, Tancredo Neves foi eleito presidente pelo Colégio Eleitoral com 480 votos contra 180 de Paulo Maluf, em primeira posse civil de um presidente…
  • Case: Collor 1989 — A fundação televisivaA eleição presidencial de 1989 foi a primeira disputa direta para o cargo desde 1960. Fernando Collor de Mello, governador de Alagoas pelo PRN, venceu Lula no segundo turno com…
  • Diretas Já (1983-1984)Diretas Já é o nome popular da campanha pela emenda Dante de Oliveira, que pretendia restabelecer eleições diretas para presidente, entre 1983 e 1984. Embora a emenda tenha…
  • Case: Lula 2002 — A esperança vence o medoCase Lula 2002 é considerado o trabalho mais consequente do marketing político brasileiro. Coordenado por Duda Mendonça, transformou um candidato com teto eleitoral…
  • Sete fases do marketing político brasileiroA história do marketing político brasileiro pode ser organizada em sete fases distintas, cada uma marcada por combinação específica de tecnologia, marco regulatório,…

Referências

  1. MENDONÇA, Duda. Casos e Coisas. Globo, 2001
  2. Folha de S.Paulo. Cobertura histórica da eleição municipal de Salvador 1985
  3. Top de Marketing 1986 — Premiação à campanha