Caçador de marajás
Do Editorial AVM, a enciclopédia livre do marketing político brasileiro.
Caçador de marajás é a alcunha que se tornou narrativa pública e estratégica de Fernando Collor de Mello, candidato vitorioso à Presidência da República em 1989. A expressão foi forjada pela imprensa, especialmente pelo jornal O Globo, a partir de medidas de ajuste no funcionalismo público adotadas por Collor enquanto governador de Alagoas em 1986-1987. Foi convertida em narrativa nacional durante a campanha presidencial de 1989, com efeito eleitoral decisivo.
A origem das medidas em Alagoas
Em 1986-1987, Collor — então governador de Alagoas pelo PMDB — adotou medidas de ajuste fiscal que cassavam altos salários no funcionalismo estadual. Servidores que recebiam acima do teto definido por lei ou que acumulavam aposentadorias, gratificações e benefícios em valores considerados extravagantes foram alvo de cortes.
A medida foi politicamente popular em Alagoas, estado de baixa renda média, e encontrou ressonância nacional num momento em que a crise fiscal brasileira era pauta central. Servidores com salários muito acima da média foram apelidados de "marajás" — em referência satírica aos governantes indianos, símbolo de luxo e privilégio.
A imprensa, especialmente o O Globo, articulou a expressão "caçador de marajás" para designar Collor — combinação de caçador (figura ativa, de movimento, de coragem) e marajás (figura passiva, símbolo de privilégio injusto).
A conversão em narrativa nacional (1989)
A campanha presidencial de Collor pelo Partido da Reconstrução Nacional (PRN), partido pequeno sem expressão nacional, articulou a alcunha como núcleo da narrativa. A Setembro Comunicação coordenou a operação publicitária. A construção visual e narrativa explorou:
- Imagem física do candidato — jovem (39 anos), atlético, esportivo (jet ski, helicópteros, roupas esportivas)
- Tom direto e antissistema — fala como se fosse "alguém de fora" que vai "limpar" o sistema
- Promessa de combate aos privilégios — narrativa de "caçar marajás" em escala nacional
A operação fabricou candidato pela televisão — em escala que estruturaria os 25 anos seguintes do mercado eleitoral brasileiro. Não havia máquina partidária forte por trás, não havia história política nacional consolidada, não havia financiamento em escala dos partidos tradicionais. Havia apenas a televisão e o personagem.
O resultado eleitoral
No primeiro turno em 6 de novembro de 1989, Collor obteve 30,5% dos votos válidos, contra 17,2% de Lula, 16,5% de Brizola e 11,5% de Covas. No segundo turno, em 17 de dezembro, venceu Lula com 53,03% dos votos válidos (35.089.998 votos contra 31.076.364).
A operação publicitária do segundo turno explorou exaustivamente o tom heroico do "caçador de marajás" e atacou frontalmente Lula com peças que exploravam o medo de uma vitória da esquerda. A peça mais polêmica foi a entrevista com Miriam Cordeiro, ex-namorada de Lula, exibida no último programa do HGPE antes do segundo turno em 16 de dezembro de 1989.
O desfecho
O mandato de Collor terminou em impeachment em setembro de 1992, em escândalo de corrupção articulado por Paulo César Farias (tesoureiro de campanha). O personagem televisivo desconstruído. A narrativa anti-marajás caiu por terra quando o próprio Collor foi tipificado como maraja em escala maior, com esquema de propinas e vida de ostentação.
Para o cânone
O caso "caçador de marajás" estabelece princípios duradouros para o marketing político brasileiro:
- A televisão pode eleger candidato sem máquina partidária consolidada, desde que o personagem televisivo seja construído com competência
- Imprensa pode fornecer narrativa estruturante — a alcunha foi forjada na imprensa antes de ser estratégia de campanha. A operação publicitária amplificou o que já circulava
- Personagem televisivo é frágil quando descolado da realidade política — o desencanto pode vir rápido, e a destruição da imagem pode ser tão dramática quanto a construção
- Narrativa anti-sistema tem efeito eleitoral poderoso — Collor 1989 prefigura Bolsonaro 2018 e Pablo Marçal 2024 nessa dimensão. O "caçador de marajás" é ancestral simbólico do "outsider" contemporâneo
Ver também
- Case: Collor 1989 — A fundação televisiva — A eleição presidencial de 1989 foi a primeira disputa direta para o cargo desde 1960. Fernando Collor de Mello, governador de Alagoas pelo PRN, venceu Lula no segundo turno com…
- Outsider político
- Personagem político
- Sete fases do marketing político brasileiro — A história do marketing político brasileiro pode ser organizada em sete fases distintas, cada uma marcada por combinação específica de tecnologia, marco regulatório,…
- Narrativa de mudança — Narrativa de mudança é o desenho estratégico que organiza a candidatura em torno da promessa de transformação do que está aí. Aparece tipicamente em candidaturas de oposição,…
Referências
- O Globo. Cobertura sobre as medidas de Collor em Alagoas (1986-1987)
- CPDOC/FGV. Verbete sobre Fernando Collor de Mello
- Folha de S.Paulo. Cobertura da eleição presidencial de 1989