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Case: Lula 2006 — Reeleição sob o Mensalão

Do Editorial AVM, a enciclopédia livre do marketing político brasileiro.

A reeleição de Lula em 2006 ocorreu em cenário catastrófico para o PT. O escândalo do Mensalão havia sido deflagrado em junho de 2005 pela denúncia do então deputado Roberto Jefferson (PTB). A leitura predominante no mercado político no início de 2006 era que Lula iria a segundo turno e perderia.

A operação foi coordenada por João Santana, ex-sócio de Duda Mendonça desde 1997 e fundador, com sua esposa Mônica Moura, da agência Polis Comunicação e Marketing em 2002.

O cenário — Mensalão

O escândalo do Mensalão havia sido deflagrado em junho de 2005. Investigações sucessivas (CPI dos Correios, CPI do Mensalão, Ministério Público Federal, Polícia Federal, STF) expuseram esquema de pagamentos mensais a parlamentares aliados em troca de apoio ao governo, operado via Banco Rural com participação de:

  • Marcos Valério (publicitário mineiro)
  • Delúbio Soares (tesoureiro do PT)
  • José Genoíno (presidente do PT)
  • José Dirceu (ministro da Casa Civil)

Aliados próximos de Lula foram presos. Imprensa hostil cobria diariamente o desenrolar do escândalo. Adversários animados articulavam candidaturas. Era cenário aparentemente impossível para o PT.

Duda Mendonça, ainda atravessando as consequências jurídicas do Mensalão (indiciamento que culminaria na absolvição de 2012), não assumiu a campanha de 2006. Em seu lugar, a coordenação foi entregue a João Santana.

Os três pilares

A operação de Santana trabalhou três alavancas estratégicas:

Primeira — realinhamento territorial

O lulismo, como fenômeno político-eleitoral, consolida-se em 2006 como força do Norte e Nordeste, da periferia urbana e do beneficiário de Bolsa Família.

O Bolsa Família, criado em outubro de 2003 como unificação de programas pré-existentes (Bolsa Escola, Auxílio Gás, Cartão Alimentação) sob coordenação de Patrus Ananias, alcançou em 2006 cerca de 11 milhões de famílias — mais de 40 milhões de pessoas, ou 22% da população brasileira. O efeito eleitoral cumulativo do programa, em territórios historicamente carentes de presença estatal substantiva, era enorme.

A campanha realocou o eixo do debate da pauta da imprensa nacional (Mensalão, corrupção, escândalos) para a pauta do beneficiário concreto do programa social — renda, emprego, dignidade, ascensão social. Os filmes do HGPE percorriam interior do Maranhão, do Piauí, do Ceará, mostrando famílias beneficiárias falando em primeira pessoa sobre transformação cotidiana.

Segunda — polarização útil contra elite tradicional

O candidato adversário era Geraldo Alckmin (PSDB), ex-governador de São Paulo, médico, perfil técnico e moderado. A campanha de Santana o construiu sistematicamente como representante da elite tradicional brasileira — a elite que privatizou a Vale e a Companhia Siderúrgica Nacional, que executou cortes nos governos FHC, que defendia agenda restritiva.

A Vale, especialmente, virou tema de propaganda recorrente. A frase "Eles privatizaram, nós entregamos" funcionou como mantra. Eleitor de baixa renda, beneficiário de programa social, era convidado a se identificar com Lula contra "eles" — os tucanos, os privatizadores, a elite paulista.

Terceira — economia em curva ascendente

Em 2006, o ciclo virtuoso já estava em pleno vigor:

  • Salário mínimo havia subido em termos reais 35% desde 2003
  • Crédito havia se expandido com novas modalidades (consignado, BNDES, programas habitacionais)
  • Desemprego caía consistentemente
  • Inflação sob controle pelo regime de metas
  • Reservas internacionais em alta
  • PIB crescendo

A campanha traduziu esses dados macroeconômicos em comunicação direta e popular. Filmes mostravam a casa nova, o emprego novo, o consumo novo. A frase "Nunca antes na história deste país", que Lula usaria em diversos momentos, capturava o sentimento de transformação cotidiana.

O Mensalão tornado irrelevante

O Mensalão, contudo, não foi varrido para debaixo do tapete. Foi enfrentado retoricamente.

Lula assumia o erro do partido, distância pessoal do esquema, e mudança de quadros (Dirceu havia saído da Casa Civil). A campanha não tentou negar o escândalo — tentou tornar o escândalo irrelevante para a decisão de voto.

O eleitor que precisava decidir entre escândalo dos políticos e Bolsa Família no banco no final do mês escolhia Bolsa Família. A pesquisa qualitativa profunda de Santana mapeou exatamente esse vocabulário do eleitor.

Os debates e o resultado

Os debates televisivos foram momentos críticos. Alckmin, com perfil técnico e tom moderado, tinha dificuldade de capturar emocionalmente o eleitor. Lula, com sua linguagem popular e capacidade de improviso, projetava continuidade do líder que estava no comando do ciclo virtuoso.

Primeiro turno (1º de outubro de 2006):

  • Lula — 48,61% dos votos válidos
  • Alckmin — 41,64%

Lula ficou ligeiramente abaixo dos 50%+1 necessários para vitória direta, em parte por declarações infelizes nas semanas finais (caso Aloizio Mercadante e a "ficha do dossiê" comprado de cabos eleitorais tucanos).

Segundo turno (29 de outubro de 2006):

  • Lula — 60,83% dos votos válidos
  • Alckmin — 39,17%

Mais expressivo, em proporção, que a vitória de 2002.

Para o cânone

Lula 2006 estabeleceu princípios cruciais:

  1. Incumbente sob escândalo pode vencer se realocar a conversa para terreno onde é forte. Não é matar o escândalo — é fazer ele perder relevância na decisão de voto
  2. Construção sistemática de adversário em narrativa coerente — Alckmin como elite tradicional não era retrato realista, mas era enquadramento útil
  3. Uso do programa social como infraestrutura eleitoralBolsa Família virou ativo político mensurável em volume de votos, especialmente no Nordeste, onde a partir de 2006 o PT consolidou hegemonia que duraria pelo menos até 2018

João Santana saiu de 2006 como herdeiro de Duda Mendonça no panteão dos marqueteiros petistas. Os anos seguintes — com Dilma 2010 e Dilma 2014 — consolidariam essa posição, antes da implosão da Lava Jato em 2016.

Ver também

Referências

  1. TSE. Resultados da eleição presidencial de 2006
  2. MAKLOUF DE CARVALHO, Luiz. João Santana: um marqueteiro no poder. Companhia das Letras, 2016
  3. SINGER, André. Os Sentidos do Lulismo. Companhia das Letras, 2012